Hoje, assim que a noite começar a se pavonear, estarei vendo um grande amigo subir ao palco para demonstrar suas habilidades musicais. É um show importante e faço questão de comparecer disposto em ajudar a encorpar a massa de presságios para que tudo corra melhor do que planejado.
Antes do espetáculo musical e esporádico. Assisto mais uma vez, sem sinais - nem mesmo aqueles remotos - de enfado, ao espetáculo diário do ocaso. No inverno em especial, o sol mistura um sentimento à sua luz, no qual o deixa mais manso e mais pastoso, conseguindo fazer resplandecer à tudo com mais lirismo.
Nada escapa do retoque harmonioso dado pelo sol invernal. Olhei a pele do meu irmão e a vi dourar dum ouro de fantasia, como se estivesse sido pintada. Da varanda, vi nas montanhas as árvores cantarem de alegria por estarem além de mais belas, aquecidas por um calor que não é maçante. Fui à cozinha, e vi a água mergulhar no copo a revelar com nitidez a pálpebra do olho da Mãe. Olhei para cima e vi o céu mais calmo, como se fosse um lago. As nuvens tinham um contorno esmerado, e pareciam descansar estacionadas no céu decididas a pura contemplação. Olhei meu cachorro e o vi transformado em leão. Vi as flores do meu jardim maquiadas e vivas. Finalmente resolvi olhar a quem faltava, e por espanto deparai-me com o reflexo do poente pintado escorrer junta a lágrima, lastimando mais uma vez o fim de um dos espetáculos mais belos que existem.