Acordou as 10, diferentemente dos dias em que trabalha. Estava ensopado em suor, seu ventilador não fazia a hélice girar, não tinha forças, pois esquecera de pagar a conta de luz no dia certo por estar numa viagem a negócios. É um dia atípico, ficou de passar na casa do pai, que já não vê há um tempo. Apesar da distância sempre se deram bem, sem deixar de lado aquele tratamento respeitoso e afetuoso, feito general e soldado.
O pai trabalhou com a bolsa de valores, um simples operador, ganhou algum dinheiro, nada que chegasse perto dos incontáveis zeros. O filho o estima como um antigo grande economista, era assim que ele o dizia, e logo, é assim que ele o publica, como um pai muito bem sucedido financeiramente. O filho, já não gosta muito de tocar no assunto, trabalha numa loja de seguros e nada mais, não gosta de falar do seu trabalho, pois diz ser injusto, reclama ele, mas diz a todos que tem o projeto pronto para abrir seu próprio negócio.
O pai morava num bairro anexo ao dele, então não viu necessidade de ir de carro, preferiu pegar a velha lambreta de seu porteiro emprestada, uma hora a pedalar e estaria lá. Chegando perto à morada estacionou motoneta numa rua antes, justificando ser o melhor lugar para deixá-la. O senhor esperava-lhe na porta, e presenteou-lhe com um singelo sorriso. Depois do abraço, reclamou do trânsito nas ruas e dos pedestres que o atrapalharam durante o percurso quando vinha dirigindo em seu automóvel.
O velho de tão antigo, esqueceu em minutos do carro, não fazia diferença a ele, já lhe bastava ter que perder o noticiário da tv e abandonar seus canários. Foram de táxi até o lugar, por conta do pai é claro, durante o caminho o mais novo clamava contra o motorista pelo fato de não haver ar gelado no seu carro, e se lá fora 36 graus ardiam sobre as cabeças dos homens, dentro daquele carro só faltavam os presentes estarem de toalha para deleitar uma formidável sauna móvel.
A despeito de nunca ter passado ali antes, disse ao pai ser frequentador do local, mas esse não lhe deu a esperada importância. Comeram o prato do dia, os dois, o pai porque gostava, e ele porque estava cansado de lagosta. Bebeu água, pois naquele inferno era o único líquido apaziguador. Durante a refeição conversaram sobre a copa do mundo, as obras do trem, e alguns negócios que não interessavam a ambos.Infelizmente esqueceu o cartão de crédito em casa, sorte a dele o pai ser prevenido e andar sempre com mais que o necessário.Ah, protestou com o gerente, alegando que a comida nos últimos tempos tinha caído muito de qualidade, e que se continuasse dessa forma, em breve passariam de restaurante fino a do povão.
Povão, no meio dele vieram os dois. Já que as reservas do velho acabaram-se, a volta foi de trem subterrâneo, metrô. Dentro daquele minhocão iluminado por uma luz cansada de um branco pálido, eles entraram e se dirigiram ao centro, onde não havia ninguém. Estavam todos separados como se é de costume, ocupadas apenas os assentos das janelas, pois de lá pode-se desfrutar da bela vista que o metrô proporciona. Ah, os ouvidos também encontravam-se cheios, com fones que tocam música, sabe-se lá qual.
O senhor quase não falou, exceto algumas palavras sem pretensão nem importância, estava mais a escutar o seu pequenino mesmo. E como ele falava. No trem logo começou a reclamar que não gostava de lá andar. Preveniu o pai, dizendo que o trem logo encheria de gente, e que seria horrível pois ele ainda carregava uma sacola da comida que sobrou, para dar ao seu porteiro é claro, que como ele mesmo definiu "é burro mais é gente fina".
Logo chegaram a estação da multidão, e ela entrou, feito uma onda de tsunami, levando a tudo que estivesse pela frente. Os dois estavam a salvo da enxurrada, mas ela não estava de suas objeções. Falava ao pai em voz alta todas as deselegâncias oriundas daqueles incivis. Afirmava não poder andar no meio daquela gente mal educada, e que por educação ou por cansaço do trabalho árduo não tinham força nem para responder-lhe as ofensas. Ansiava à próxima estação, onde todos os ratos desceriam, e assim chegariam a seus devidos lugares, o esgoto, o subúrbio.
Aliviado com a saída daqueles, respirou desafogado, e aguardou tranquilo até o fim da viagem. Desceram logo na estação seguinte. Foi a pé até a casa de seu pai que era perto. Criticou a companhia de luz pois as luzes amareladas faziam sombras estranhas, preferindo por não assumir ao pai que lhe davam medo. Um breve abraço de despedida, desejos de cuidado, boa sorte e breve retorno. E logo caminhou até a sua bicicleta, emprestada.
Estava fatigado na volta, que demorou meia-hora a mais que na ida. Xingou uns tantos quantos cachorros que desviaram-lhe da reta imaginária. Presenteado com uma cama talvez conseguisse dormir ali mesmo, com a cabeça sobre o canteiro. Há duas ruas de casa, foi pego de surpresa, acordou de sua sonolência, acometido por um repentino acidente.
Desatento viu que não haveria jeito, os freios da bicicleta do porteiro nem funcionavam, ele ia de encontro fatal a um dos carros que participou do acontecimento. Durante essa fração de segundos foi pensando que preferia morrer a pagar uma bicicleta ao homem, pois, vivo, não teria como pagar-lhe.
Nesse momento, como que vendo um filme, se viu parado, não sabe-se como, a olhar a menos de um metro os carros estraçalhados, estava tão nervoso que não conseguiu notar facilmente que um grupo de pessoas o cercava. Então entendeu, tinham-lhe salvo a sua preciosa vida. E em vez de praguejar, xingar e reclamar, dessa vez resolver agradecer. "Obrigado, Senhor".