O dia nublado e monocromático cooperou com o escurecimento do dia mais cedo. Apesar das previsões a chuva não veio, e a noite caiu suave. As nuvens distinguiam-se do céu com sua tonalidade. Luzes brilhavam do alto da colina meio a escuridão, mas não eram elas estrelas.
Nas ruas os pilotos sonhavam estar em aviões e assim comandavam seus carros. Em um reboque via-se um desses jatos desligado, sendo carregado, talvez por algum desajuste mecânico ou até mesmo descuido do capitão, aquele aeroplano sofreu um acidente, não houveram sobreviventes.
As calçadas mal iluminadas estavam ocupadas por desabrigados com frio. Os andantes passavam apressados por eles, com medo de que algum deles acordasse e lhes arrancassem o pescoço. Adorariam estar em qualquer daqueles aviões que passavam fugazes, menos aquele que passou agora, o vermelho, pois era muito velho.
Os becos eram evitados não por medo de ladrões e estupradores, e sim pelo medo de morrer intoxicados pelo cheiro do mijo que escorria das paredes até desembocar naquela enorme piscina fétida, cheia de formigas nadadoras que para chegar nos seus trabalhos tinham que atravessar aquele rio. Nas passarelas se atreviam alguns prováveis destemidos, com o passo mais apressado possível, disfarçando a corrida amedrontada. Era de se entender que muitos arriscassem ser amassados pelos trens que cortavam a autopista, do que passar naquela pavorosa ponte de pessoas.
Os animais conservadores já estavam recolhidos em seus lares, com suas famílias, a assistir a novela e comer o jantar, para depois dormir. Pela noite somente os caçadores, atrás de alimento e, quem sabe, um pouco de diversão paga. Os gatos saiam das sombras sem serem notados, exceto um gordo, que se esparramou no sono bem no meio de uma empreitada contra uma ratazana.
Dois homens caminham rápido, dão a entender que estão a apressar-se para chegar em suas aconchegantes casas e suas lindas mulheres, mas o destinou é outro, e contém os mesmos atrativos da casa. Uma rapariga lamenta o término do romance com o jovem, ele jurou casamento, e ela afoita, terminou o caso no ato.
No meio das nuvens emergiu a lua, cintilante e sorridente, há uma semana distante. Veio fazer umas anotações e analisar a situação, já que o sol preguiçoso dormiu no oriente. Não se preocupava com a iluminação elétrica, nem com os homens. Olhava atentamente suas filhas diletas, o cheiro do verde, a transparência do azul, o bafo do vento, o peso das folhas e a tonalidade das flores. Parecia anunciar algo de importante.
Sob os olhos da lua e o véu dessa noite fria vai renascer a Primavera e tudo que ela traz consigo.