Saindo do CCBB, decidi fazer um passeio mais longo, comprar uma cerveja, passar pelo Arco dos Telles, pela ampla praça XV, admirar uma das poucas igrejas que acho interessante e assim caminhar até o trem subterrâneo.
Avistei a rua tradicional, mas preferi optar por uma dessas ruelas que só passam em monte nas festividades de fevereiro. Ela estava vazia, via aquele corredor amarelado, cheio de sombras. Logo no inicio fiquei abismado, via homens a contemplar uma banca de flores, que situação insólita porém regozijante. Mais alguns passos a frente e descobri que o objeto de vislumbre não eram as cheirosas e sim a bola que corria solta no jogo que passava na pequena tela de TV.
Fui cativado pelos paralelepípedos antigos, de muitos carnavais, que fizeram-me lembrar da tranquilidade das cidades de interior em Minas, onde ando sem preocupação no meio da rua, por cima deles, e foi o que fiz. Como toda linha reta perfeita, eu fazia minhas curvas, para desviar dos velozes.
Nos bares, homens de todas as idades afogavam as tristezas de mais um dia em um balde cheio de cerveja. Juntos enchiam-se com um pouco de si, para poderem dormir orgulhosos de estarem vivos. Perto deles, na calçada, significativas montanhas de lixo, sendo retiradas paulatinamente por um gari voluntário, que procurava na herança de mais um dia, seu próprio ganha-pão. Dei-lhe minha lata de cerveja, ele agradeceu com um sorriso fraco, sem forças, cansado daquela repetição cotidiana. Talvez se conseguisse juntar um trocado, sentaria-se na mesa com os varões do bar, a tentar colorir uma vida sem cor.
Ficava feliz de ver as lojas fechadas, somente a luz amarelada, opaca. As pessoas iam apressadas, não sei aonde. Os bordéis modernos hoje são em galerias, e na porta em vez de meninas, seguranças. Além daquelas escadas prometem-lhe o paraíso. Passei direto, os paralelepípedos confortavam-me, via neles a resistência, a sobrevivência do que já foi. Um pouco a frente vi a enchente de asfalto que afogou toda a minha felicidade. Os barcos traçavam ferozes, os prédios imensuráveis pretendiam cochichar ao ouvido da Lua. Aquela luz branca, vinda do alto, mas não do céu. Não consegui ver mais nada.