terça-feira, 24 de novembro de 2009

Observações a respeito de filmes do festival de curta


Escola de carteiros - Jacques Tati


Dentro do Odeon escuro, na parte de cima, presenciei mais uma vez o potencial de um homem que fazia filmes felizes, um verdadeiro encantador de pessoas. Frente a projeção, as identidades perdiam de súbito a sua importância, e todos entravam no mundo encantado de Jacques Tati.
O filme era Escola de Carteiros, de 1947, que deu origem ao longa Carrossel da Esperança, feito dois anos depois. Numa cidade campestre, Tati encarna um carteiro carismático, ostentando seus quase 1,90m de altura, que passeia em sua bicicleta a entregar cartas a todos os moradores do vilarejo.
Quase nada se fala, mas muito se exprime. É um filme eloqüente apesar de se apropriar poucas vezes do uso da palavra. A trilha sonora vem como sustento daquela realidade feérica, e dá alento àquela beleza sutil. Tati nos insere em um mundo onde o silêncio não fala, e a tristeza não chora.
Nós o acompanhamos pelo campo, entre os morros, as vacas e as galinhas. Sobre uma bicicleta que tem vida própria, eles vão colorindo, dentro das nossas cabeças, aquelas imagens em preto e branco.
No mundo de Tati tudo tem cor, tudo tem vida, da simplicidade desse carteiro cresceu o lendário Mr. Hulot, filhos desse grande cineasta, que sempre proferiu sem palavras e com uma doçura pueril, ácidas criticas à sociedade, e lindas declaração de amor à humanidade.
Enquanto ele, na tela, batia seu cachimbo na sola do sapato, nós, na platéia, batíamos palma para aquele homem desconcertado que nos maravilhava, a mim, a senhora ao meu lado, a menina do outro lado, a todos indistintos que eram apenas vultos com olhos brilhantes diante daquele carteiro simpático e bufão.


Arquitetura do corpo – Marcos Pimentel


Os pés sofridos que acariciam o chão com beleza, altruístas, independente da dor e da indiferença por parte do chão, rígido, impiedoso. Assim começa essa viagem em um mundo que a dor é confortada pelo amor.
A câmera invade as salas de dança com discrição, surda, nada se ouve. As palavras não fariam sentido, e a música que acompanha aqueles corpos em movimentos é quase imaginária, intrínseca, estamos surdos também.
O filme/declaração, mostra com nitidez a importância do processo na realização de uma obra, seja ela qual for, na dança em especial, as marcas desse processo são guardadas com dor e amor no próprio corpo. Dor e amor, os dois pilares da arte, da vida.
As sapatilhas desfilam uma sorte de cores e tamanhos, porém, com um ponto em comum, todas elas gastas e bem vividas. Os dedos parecem não existir.
Do rosto doce traçado por uma gota de suor que atravessa lá de cima, da testa, até despencar do queixo em direção ao chão, que se dependesse dessas poderia ser confundido com uma piscina ao fim de um treinamento. O esforço rígido ofuscado pela sutil beleza dos movimentos. Ninguém fala, mas o filme grita em homenagem ao divino, ao corpo que resiste, que se envolve em si e, que encanta. Da música que desprende o corpo e faz dançar a alma.
O cineasta invisível invade a área de seleção, expõe o nervosismo explícito de todos, até o sorriso aliviado do que fica, e o choro incontrolável do que ficou, só que para a próxima.
O grande nervoso com a iminente entrada em cena no palco, contrastada com o sorriso pueril dos futuros grandes já em cima do palco, como se estivessem a brincar, e realmente estavam.
Um verdadeiro elogio à versatilidade dessa arte sem cor, que abrange todas as idades e classes sociais, das bailarinas que embelezam a laje do barraco a dançar meio a roupa estendida no varal; das crianças que se desvendam diante do espelho durante o alongamento; dos rapazes que vencem o preconceito por amor, apenas; e desse diretor, que com o olho, apenas o olho, declarou sua paixão pelo espetáculo que é a dança, pela maravilha que é o corpo, com dor e com amor.